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A Incrível Máquina de Produzir Respostas para Perguntas Invisíveis

10 Aug 2017

Não raro, para pessoas que estão se aventurando nas gestões públicas, a vida parece um mundo fantástico onde a multiplicação das tarefas é infinita e o tempo diminui de forma inversamente proporcional, como se houvesse alguma criatura mágica tramando travessuras nos bastidores da organização do cotidiano na burocracia.

 

Como a urgência das demandas sociais não vem acompanhada de um botão de “PAUSAR”, logo a nossa trabalhadora da gestão pública se vê parte de uma linha de produção de respostas em série, dia após dia, para dar conta dos anseios da população, das chefias, da mídia, dos membros do legislativo ou do judiciário e dos órgãos de controle.

 

Esse processo, veloz e arrebatador, compromete sobremaneira a possibilidade dessa trabalhadora se manter atualizada sobre o conteúdo das últimas pesquisas em sua área e se capacitar em cursos com maior carga horária - ou mesmo garantir períodos de leitura, debate e reflexão em equipe durante o dia de trabalho. Logo, as respostas passam a ser formuladas prescindindo de um entendimento anterior sobre quais perguntas estão sendo feitas e quais perguntas PRECISAM ser feitas para realmente resolver o problema.

 

E é assim, cara leitora, que a gestão pública, em suas distintas instâncias, se torna uma Incrível Máquina de Produzir Respostas para Perguntas Invisíveis.

 

 

 

Sem tornar nítido qual o problema que vamos enfrentar, não há como produzir respostas certas. Imaginemos um cenário onde os principais jornais de uma cidade denunciam a grande fila de espera para um determinado exame no SUS e a prefeitura passa a ser cobrada a tomar providências. “Se há fila de espera”, poderia pensar a gestão, “precisamos comprar outro equipamento para realizar o exame ou contratar esse exame na rede privada!”. São respostas que, talvez, resolvam o cenário caótico de cobrança que se instaurou, mas elas tem um custo.

 

Imaginemos, agora, que após contratar mais mil exames por mês com a rede privada, por um custo X, a gestão descubra que o equipamento que ela tinha disponível na rede pública está produzindo muitos exames a menos do que o esperado, porque o encaminhamento para o exame estava sendo feito de forma equivocada. O problema não é mais de disponibilidade de exame, mas de fluxo de informações. Uma vez corrigido o fluxo, a gestão percebe que a fila de espera diminui imediatamente e, agora, o novo problema é que temos um equipamento na rede pública e outro na rede privada, ambos financiados com verba pública, ambos ociosos!

 

A EVIPNet Brasil sugere quatro perguntas-chave a serem consideradas antes de produzirmos respostas para determinado problema:

 

1. Qual é o problema e como passou a chamar a atenção?

2. Como o problema pode ser descrito e quais as possíveis consequências disso?

3. Quão grande é o problema?

4. Quais são as causas do problema?

 

Um problema de política pública é sempre multifacetado e implica contextualização e debate amplo com os diferentes grupos de interesse. Conhecer as posições de quem exerce cobrança por soluções, as fontes de informação disponíveis sobre o tema e as possíveis disputas políticas e ideológicas em jogo é essencial para uma definição abrangente do problema, que auxilie na produção de respostas qualificadas e efetivas.

 

Se estão te pedindo respostas... que tal começar entendendo as perguntas?

 

***

 

Laura Boeira é co-fundadora do Instituto Veredas. Psicóloga e mestranda em Bioética pela UnB, Laura conheceu de perto a incrível máquina nos anos que trabalhou como Analista de Políticas Sociais no Ministério da Saúde - e sobreviveu para contar.

 

 

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