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Chega de mentiras!

4 Aug 2017

- Além de um hino nacional, o que são "Evidências"?

 

 

 

“E nessa loucura de dizer que não te quero

Vou negando as aparências

Disfarçando as evidências

Mas pra que viver fingindo

Se eu não posso enganar meu coração?”

 

 

 

 

 

A abundância e a qualidade das informações hoje disponíveis para qualquer um via internet, em especial redes sociais e portais de notícias, virou tema recorrente nos mais diversos espaços de debate e reflexão. Afinal, como escolher em quais informações confiar sendo que elas são tantas e nós tão parciais em nossos julgamentos? Como separar bom jornalismo de notícias falsas e tendenciosas (as tão faladas “fake news”)? E como separar dados utilizados de forma arbitrária de conclusões tecnicamente sólidas e mais confiáveis?

 

Essas e outras questões são urgentes, e pretendemos voltar a elas diversas vezes neste Blog. E, para isso, hoje queremos debater um pouco o que é “evidência”, e como podemos incorporar evidências de forma crítica e cuidadosa no nosso cotidiano e, em especial, na gestão pública.

 

Evidência é uma informação na qual nos baseamos para chegar a uma conclusão ou inferência. Assim, por exemplo, quando uma criança experimenta um doce e começa a pedir mais, ela passou por um processo de inferência com base em uma evidência empírica: ela descobriu que o doce é uma delícia porque o experimentou (evidência), e a partir dessa informação ela chega à conclusão que o doce é bom e passa a querer mais!

 

Na gestão pública, decisões são tomadas cotidianamente, muitas vezes com potencial de impacto imenso, afetando milhares ou mesmo milhões de pessoas. Para subsidiar essas decisões, os gestores ou legisladores se baseiam em algumas informações e dados sobre o mundo. Por exemplo, a ideia de um programa como o Bolsa Família pode nascer da nossa experiência particular que aponta que vivemos em um país desigual e muito pobre, mas para que o programa pudesse alcançar o tamanho e a complexidade que tem hoje, informações mais precisas tiveram que ser produzidas,  como os levantamentos do IPEA que apontam que no Brasil hoje cerca de 18 milhões de pessoas vivem com uma renda per capita mensal menor que 200 reais (pobreza extrema).

 

Assim, “evidências”, no contexto da gestão pública, vão ser informações que permitirão um melhor entendimento sobre os problemas a serem enfrentados (diagnóstico) e também sobre as possíveis estratégias de intervenção (planejamento e execução de uma política pública). Esse tipo de informação poderá ser originado de diversas maneiras. A experiência profissional e de vida de políticos, gestores e técnicos, por exemplo, é uma grande fonte de aprendizados sobre quais são os problemas enfrentados pela população e quais as melhores formas de enfrentá-los. Estudos técnicos e científicos, também.

 

Aqui, no entanto, nos deparamos com uma questão: quando a experiência pessoal diverge dos achados de uma pesquisa ou quando pesquisas divergem entre si, qual evidência será a mais adequada? Nesse caso, não existe uma resposta certa, e cada caso deve ser analisado individualmente.

 

Mas uma linha de raciocínio pode nos ajudar a ponderar essas diferenças: as evidências provenientes de experiências pessoais costumam ser muito mais próximas da realidade concreta e ricas de detalhes, assim elas têm a vantagem de serem qualitativamente fortes. Por um lado, elas são extremamente parciais: são fruto de uma experiência individual e particular, e muito vinculadas às nossas opiniões, crenças e vieses. Os métodos de pesquisa, por outro lado, buscam oferecer ferramentas para que um retrato mais impessoal da realidade possa ser construído, de forma transparente e sistemática, permitindo assim que novas facetas dos fenômenos possam ser exploradas e que sejam produzidas conclusões confiáveis e representativas da realidade. Esse esforço, no entanto, tem um preço: qualquer pesquisa sempre sofre pela necessidade de afastamento da realidade (abstração), o que torna seus resultados um recorte mais empobrecido do mundo concreto.

 

Entre pesquisas, o mesmo dilema aparece: métodos qualitativos são mais ricos e próximos da concretude da experiência, já métodos quantitativos e experimentais costumam produzir resultados mais generalizáveis e válidos para grandes populações.

 

Qual evidência é mais apropriada? Isso vai depender do contexto e das possibilidade de estudo e de coleta de informações. Todo tipo de evidência pode ser útil no processo de tomada de decisão, mas é importante que todos os envolvidos tenham clareza das forças e fraquezas das informações utilizadas, e incluam essa ponderação no processo.

 

***

 

Davi Romão é co-fundador do Instituto Veredas. Psicólogo e mestre em Psicologia Social pela USP, é Analista de Políticas Sociais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, onde atua como Coordenador de Pesquisa da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

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