RECONTA AÍ: Atlas da Juventude – de cada 5 trabalhadores informais, 4 são negros

por Portal Reconta Aí

09 de ago de 2021

3 min de leitura

O mercado de trabalho tem profundas desigualdades relacionadas à idade, ao gênero e à raça. E a pandemia de Covid-19 intensificou estas disparidades. Este é o retrato traçado pelo Atlas da Juventude, iniciativa que tenta compilar dados relativos à temática para a orientação de políticas públicas.

“O mercado de trabalho não é diferente de outras áreas e sistemática e historicamente vem sendo afetado por questões de raça e de gênero. Os vínculos de trabalho aos quais as juventudes brasileiras costumam ser expostas são tipicamente precários. Quando somamos a isso os desafios ampliados enfrentados pelas mulheres e pelas pessoas negras, esse quadro se agrava”, explica Laura dos Santos Boeira, diretora-executiva do Instituto Veredas, uma das entidades que participou da elaboração do documento.

A dinâmica, ainda que perversa, é simples: “O racismo estrutural impede que a juventude negra se prepare para o mercado de trabalho com as mesmas condições que as juventudes brancas, por exemplo. Portanto, jovens negros acabam ocupando posições menos valorizadas e reconhecidas”, complementa Carolina Scherer Beidacki, especialista em políticas públicas para a igualdade na América Latina e pesquisadora do Instituto.

Em relação à questão de gênero, a dinâmica é similar.

“Os papéis sociais esperados das mulheres como tarefas domésticas e cuidados infantis são empecilhos reais para a participação feminina no mercado de trabalho”, diz Beidacki.

Pandemia e precarização

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 24 anos de idade brasileiros ficou em 27,1% no primeiro trimestre de 2020, bem acima da média geral de 12,2% do país no período. Durante a pandemia de Covid-19, 1 em cada 4 jovens afirma que gostaria de trabalhar, mas não está empregado e deixou de procurar emprego.

“Além dessas questões mais estruturais, o cenário também foi extremamente afetado pela pandemia de Covid-19, 4 em cada 5 pessoas trabalhando em condições de informalidade são negras e a maioria dos entregadores de aplicativo são jovens e pessoas negras. Nesse sentido, há diferenças também em relação à inserção laboral, na medida em que as pessoas negras foram as que menos se beneficiaram do trabalho remoto durante a pandemia”, indica Gabriela Benatti, doutoranda em desenvolvimento econômico e também pesquisadora do Instituto Veredas.

Do lado da questão de gênero, mais uma vez, as coisas também pioraram: “As mulheres fizeram parte do grupo da população brasileira que mais sofreu com demissões desde o início da pandemia, e as diferenças nos rendimentos em comparação com os homens, já existentes antes da pandemia, se intensificaram.O desafio se intensifica quando se trata das mulheres negras, em um contexto de escassez de reservas financeiras para sobreviver à pandemia”.

Um último setor específico mencionado pelas pesquisadoras é o dos jovens rurais, “que já eram vinculados principalmente ao setor informal antes da pandemia, e tendem a acessar empregos ainda mais vulneráveis devido à crise. Existem barreiras estruturais de acesso à educação, capacitação e fraca conexão com o mercado de trabalho”.

Uma das propostas defendidas pelo Atlas da Juventude é a oferta de Microcrédito específico para o setor, além de programas de formação.

A inspiração vem de ações pelo mundo afora, como Acelera PYME (Espanha), Mujeres Jefas de Hogar , Yo Trabajo Jóvenes e Yo Emprendo (os três do Chile).

“Em especial para as juventudes empreendedoras podemos combinar o microcrédito com outros estímulos ao empreendedorismo”, diz Benatti, em referência a programas de formação tecnológica.

Foto: EBC

Fonte: Portal Reconta Aí

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