UOL: “Desenvolvimento sustentável é preocupação de jovens”, diz pesquisadora em lançamento do Atlas das Juventudes

por Giacomo Vicenzo - Colaboração para Ecoa

11 de jun de 2021

5 min de leitura

Poesia, música e debates marcaram o segundo dia do evento Festival Atlas das Juventudes, que promove o lançamento da pesquisa Atlas das Juventudes feita com jovens entre 15 e 29 anos. As mesas abordaram temas como juventudes, periferia, trabalho, cultura, gestão pública e sociedade, além de esmiuçar as visões de mundo, religião e hábitos de consumo.

Carla Mayumi, fundadora da Talk Inc, que foi responsável pela pesquisa qualitativa do Atlas das Juventudes, apresentou cenários colhidos do estudo na Mesa Talk. “Jovens estão vivendo uma onda mais sustentável, compram de brechós e também procuram produtos e marcas mais sustentáveis. Quando eles olham para um produto se fazem diversas perguntas sobre sustentabilidade antes de comprar”, afirmou.

Mayumi também observou na pesquisa um movimento que diz respeito às crenças e religiões desse grupo e apontou que jovens que passaram por várias crenças criam suas próprias formas de pensar e de acreditar. “Acho importante olhar para as diferentes religiosidades com um olhar aberto, para conseguir aprofundar no que representa a religião na vida dos jovens, e até ir além de julgamentos rápidos e por vezes, preconceituosos”, explicou para Ecoa.

“Temos os jovens mais religiosos, que no ambiente e grupos da igreja encontram pertencimento, principalmente junto com outros jovens. Há os que experimentam religiões e vão compondo seu próprio sistema de crenças. Dos que estão ou passaram pelas igrejas, uma parcela destes acredita que as igrejas são muito impositivas no que diz respeito a como os jovens devem se comportar, e isso acaba os afastando”, completou.
Jovens que foram ouvidos na pesquisa também participaram do debate. “Entendi o quanto eu não me percebia como jovem, eram perguntas simples, mas pessoais. Nossa juventude é paradoxal, não entendemos muito sobre nós, mas temos essa ganância de mudar o mundo”, comentou Linda Português estudante de direito sobre a experiência de integrar a amostra do estudo.

Também participaram da mesa Danilo Tupinikim, indígena da etnia Tupinikim e estudante de ciências políticas e Saman Ferreira, bacharel em humanidades, o debate foi mediado por Sanara Santos, jornalista e produtora chefe da Énois.

A poetisa MeiMmei Bastos, de Ceilândia (DF), recitou versos duros sobre o período de escravidão, sofrimento negro, preconceito e críticas às desigualdades sociais.

Dados orientam políticas públicas efetivas

Na mesa do Instituto Veredas, Danilo Castro, que integra a instituição, relembrou sobre a importância de nortear as políticas públicas em evidências e dados concretos. “Não pode ser uma questão de opinião, por exemplo, reduzir a maioridade penal reduz a violência? Não, os dados mostram que reduzir potencializa a violência”, afirmou.

Castro também explicou sobre o trabalho da organização, que há cinco anos se dedica a interligar pautas da gestão pública, da academia e da sociedade. “Nosso trabalho é visitar dados e ferramentas em todo o mundo para entender o que já foi feito e o que não foi em relação às juventudes. Mapeamos as iniciativas que deram certo e que não deram. Isso fica disponível aos gestores interessados e para o poder público, para que possam usar o dinheiro com iniciativas que realmente são efetivas” explicou.

Laura dos Santos Boeira, diretora executiva do Instituto Veredas, apontou desigualdades de acesso reveladas em pesquisas levantadas pelo grupo e explicou o quanto oferecer além do básico é necessário. “Quando nos esforçamos em oferecer mais que o básico colhemos resultados em diferentes áreas, como ao investir em hortas comunitárias, observamos que não só melhoram a conscientização sobre a natureza, como trazem bons resultados para saúde mental e segurança alimentar das comunidades”, explica.

Também participaram da mesa Carolina Scherer Beidacki, pesquisadora do Instituto Veredas, especialista em Políticas Públicas para a igualdade na América Latina (Clacso) e em Saúde da Família e Comunidade (GHC). Mediando o debate estava Mathaus Torres, que integra a Diretoria Executiva do Engajamundo e faz parte das estratégias de acompanhamento e implementação dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) desde 2015.

A terceira mesa da noite abordou o cenário de crise aprofundados neste momento de pandemia de covid-19. “Muitos companheiros não pararam e estão fazendo eventos clandestinos. Eu escolhi não fazer isso porque tenho o privilégio de ter comida na mesa e contas pagas, coisas que muitos produtores periféricos não têm”, apontou a produtora cultural e comunicadora popular Duda Crespa.

Para Crespa, produzir cultura em solo brasileiro é um ato político. “Somos forçados a não estar nesses locais de criação e de produção. Para uma mulher preta como eu era para eu estar em outro tipo de serviço, em trabalhos braçais [que têm seu mérito, frisou], que as pessoas esperam que alguém que tenha o corpo parecido com o meu faça”, comentou.

Tiago Gomes, que foi presidente do Conselho Estadual de Juventude e idealizador do programa Favela Criativa no Estado do Rio de Janeiro e atualmente é líder de projetos na Fundação Roberto Marinho e Canal Futura, fez coro à fala de Crespa: “Você, de favela, tem o direito de ser artista, de poder comprar um quadro, também temos direito ao abstrato, esse não é só um direito da classe média”, exemplificou sobre suas experiências em campo ao observar a insegurança de jovens periféricos em trabalhar com arte.

Também fizeram parte da mesa Ciça Pereira, pesquisadora e sócia-proprietária da produtora artística e de impacto sociocultural Zeferina Produções e Raiany Fernandes, coordenadora de comunicação do Em Movimento e do Atlas das Juventudes, que mediou a conversa.
Também se apresentaram no evento Jéssica Caetano, pernambucana e poetiza que trouxe versos em uma mistura de rap e repente e Nayra Lays, que fechou a noite com um show animado, recitou versos de protestos e destacou:

“Onde estou hoje, sendo uma artista jovem e preta, vinda diretamente do Grajaú, zona sul de São Paulo, para mim é uma grande celebração, e é por isso que tento falar de outras narrativas, porque infelizmente o que é arquitetado para jovens como eu, é que eu não esteja em lugares como este, e sei disso”, Nayra Lays.

A programação continua hoje e conta com mais mesas de debates, exibição de curta, apresentações musicais de Wera MC e Tuyo, quadros pintados na hora e no palco pelos artistas visuais F1delis e Naná Queiroz Brito e a apresentação de Kimani, mediadora do evento e poeta de slam representou o Brasil na Copa do Mundo do Slam na França ano passado. Participe gratuitamente e acompanhe a transmissão em Ecoa.

Fonte: ECOA/Uol

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